Meditação: Uma reunião com a própria mente

Meditação: você ainda se pergunta para que ela serve?

Resolvi publicar um trecho de um livro que gostei muito. O autor explica como funciona a meditação de uma forma tão simples que é impossível a gente ainda ficar com dúvidas a respeito de como e porquê meditamos. Apesar de ser um livro sobre Budismo, a explicação se encaixa para qualquer tipo de prática de meditação que se queira fazer. Este texto foi retirado do livro: “Buda rebelde: na rota da liberdade” – de Dzogchen Ponlop. Para quem se interessar pelo livro, adianto que não é um livro específico sobre meditação, mas traz muitos esclarecimentos sobre essa prática.

 

Meditação: Uma reunião com a própria mente

A meditação traz estabilidade, calma e claridade à nossa mente ocupada e agitada. Sem a ajuda da meditação seria difícil ter sucesso no treinamento da disciplina. Precisamos de uma mente focada, calma e estável para ver nossas ações com clareza. Ao treinar em meditação, portanto, tornamo-nos capazes de treinar em disciplina.

A questão aqui é: o que estamos fazendo ao meditar? (…)

Independentemente do método que utilizamos, a meditação não é nada mais do que vir a conhecer a mente. Não se trata de meditar sobre algo ou de entrar em algum estado onde se ficaria extasiado e separado dos conteúdos da mente. Pelo contrário, o sentido verdadeiro da meditação é se acostumar a ficar junto da própria mente. (…)

Frequentemente, quando queremos conhecer alguém, podemos sugerir um encontro em algum lugar, para tomar chá. Descobrimos um bom estabelecimento, um local silencioso com acentos confortáveis, pedimos nossas bebidas e sentamos juntos. No início, a conversa é superficial, mas, quanto melhor nos conhecemos, mais confortáveis ficamos um com o outro, e uma troca honesta e aberta começa a acontecer. Nosso novo amigo passa a falar cada vez mais sobre a sua vida. Em um determinado ponto, começamos a sentir que já sabemos algo sobre essa pessoa, que temos uma ideia do que ela está vivendo. Sentimos alguma conexão e simpatia. Do nosso lado, temos que também começar a compartilhar o que está acontecendo em nossa vida. Se quisermos nos tornar bons amigos dessa pessoa, no entanto, precisamos aprender a ouvir primeiro. Temos que ficar totalmente presentes e deixar a pessoa falar. Se, por outro lado, interrompemos e dominamos a conversa, um diálogo significativo nunca se formará. Nosso encontro não resultará em conhecimento mútuo. Em certo momento, descobrimos que não interessa o quão problemático ou desnorteado seja nosso novo amigo, sempre será possível achar algo genuinamente bom e decente dentro daquela confusão.

Vir a conhecer a própria mente pela meditação também funciona mais ou menos assim. Queremos conhecer a nossa mente de uma forma mais profunda, então separamos um tempo para isso. Marcamos um encontro, e descobrimos um lugar silencioso onde podemos sentar confortavelmente e ficar um tempo com essa nova conhecida chamada “minha mente”. Nesse caso, nossa prática de meditação em posição sentada é como o café, o lugar de encontro. Há umas boas almofadas para sentar, olhamos um para o outro e, então, a mente começa a tagarelar. De fato, inicialmente, ela não para de falar. Tudo que se precisa fazer é ser um bom ouvinte. Ela vai seguir um bom tempo contando tudo o que aconteceu no passado ou que poderá acontecer no futuro. E não interessa o que ela diga, seja bobagem ou sabedoria, imaginação ou realidade, tudo o que precisamos fazer é ouvir.

Ao permanecer ali e ouvir, em determinado ponto apreendemos o que está ocorrendo na mente. Tornamo-nos capazes de reconhecer seus problemas e formular bons e úteis conselhos. Se começamos a diagnosticar logo de início, esses conselhos prematuros não levam a lugar algum. Se esperamos até o fim da história, torna-se possível guiar a mente em uma direção produtiva e benéfica, que reduzirá o sofrimento e aliviará a turbulência emocional. Porém, saber o que é benéfico é uma coisa, obter a cooperação da mente é outra. É por isso que desenvolver esse relacionamento é tão importante. Se virmos um cara esquisito na rua fazendo algo estúpido e dissermos “Ei, você aí! Não faça isso”, será que ele nos ouvirá? Não, provavelmente não. Mas se for alguém que conhecemos bem e dissermos: “Ei, amigo, por favor, para com isso”, há uma chance bem maior dessa pessoa nos ouvir e tentar parar o que está fazendo. Ocorre o mesmo com nossa mente. Se ela for uma desconhecida e, de tempos em tempos, nós a descobrirmos fazendo algo negativo e dissermos para ela parar, ela não vai nos ouvir. Mas, uma vez que tenhamos desenvolvido um relacionamento e nos tornado amigos, a mente se torna muito mais fácil de lidar, muito mais razoável e aberta à mudança. Teremos uma boa história para contar e o nosso amigo vai parar para ouvi-la.

Da mesma forma que fazemos um novo amigo, quando desenvolvermos um relacionamento verdadeiro, honesto e aberto com a mente, descobrimos que, apesar de tudo – ansiedades, lutas, turbulências emocionais -, há algo no coração da coisa toda que é inegavelmente positivo. Há qualidades de bondade, compaixão, integridade e sabedoria evidentes ao longo de toda a confusão da mente, e essas coisas brilham mais do que todos os defeitos de nossa mente.